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sobre a inocência



                                        Simbolismo: O Beijo, de Gustav Klimt
 O beijo de Gustav Klimt




A chuva perfuma de trevo a tua face

 e da boca nua destila seiva carmesim

onde aplaino o meio do silêncio.

Nasce ardente o astro com cheiro a terra. 

Cheiro do pudor do teu ventre

prenhe de linho âmbar plantado na tua inocência.

A inocência que se desfaz no cálice do tempo e no sulco do espasmo

para entoar no fruto descerrado pelo criptar das veias,  enchendo de mosto o cravo cantante.

Procuro enxertar as mãos na tua dança. Na terra do fogo.

Nos teus lábios. Nas raízes do suspiro. No ardor da carne inebriada.

 No pedaço extasiado pela delicadeza.

Na varanda da tua mocidade debruço beijos, fios de prata, pétalas embebidas de lua.

De soluço. De Amor. 

Anjo, permaneço ao cimo do caule do teu abraço

e vejo leves e sôfregos os teus olhos que fiam esperança.

Asas que se abrem do teu peito, rasgando nos meus dedos flores.

Mansamente adentrando-me na madrugada em seda,

adentro-me na tua inocência.


Zita Viegas


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Gosto do mar quando está à conversa

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Peito com lonjura no eterno escafandro. À tona, o mar guarda a proa. Nas fontes, a vontade da terra jorra azul. Vai como as aves, zarpar na madrugada a inocência. Entre os abismos, o mar acorda a ferocidade. Nas veias do sol, na vibração do vento. As águas lavram geografias e quimeras. A liberdade. é dom do mar. No fundo, sombras em metamorfose. Dormem pretéritos. Entoam bravuras. Sob o ouro das estrelas nascem liras e pensamentos de cidades idas. Crescem mitos e labirintos, nas rochas amadurecidas sem tempo. Volante das águas, a lua talha a face do universo. Na viagem abre gargantas extáticas, moldadas nas altas torres frias. Sob o sol arde o gelo, cortado pelo gume do fogo. Quase aéreo, o mundo permanece preso à espinha da raiz. Mais próxima da alma ficam as estações. São como mulheres pelo lado de dentro, levam no regaço o voo do êxodo. O mar cresce de véspera no fundo. Cresce em vertigem sobre as dunas. Mas a água rachada...